México, luta e pimentas

Neste momento que o calor do verão aquece os trópicos mexicanos, duas tradições (que muito têm a ver entre si) chamam a atenção: “mucha lucha” e muita, mas muita pimenta!

Línguas sensíveis e estômagos menos iniciados talvez não se entendam muito bem com a cozinha mexicana. Tudo por causa do seu principal ingrediente: a pimenta (ou chili). Podemos dizer que a danada é importante no México, assim como o peixe no Japão e o feijão para nós, brasileiros. Afinal, os maias e astecas já cultivavam a planta que dá origem à pimenta nos anos 3000 antes de Cristo (tanto para comer quanto para, acredite, atacar os olhos dos inimigos).

Desde pratos típicos (como tacos, burritos e nachos) até a alta gastronomia, tudo o que estiver dentro das fronteiras leva pela menos um pouquinho de pimenta. Nem mesmo bebidas, sobremesas, balas e chocolates escapam do costume. Além disso, são várias as misturas feitas a partir dela - o tradicional chili com feijão, molhos de pimenta de várias intensidades, o chipotle (amado nos Estados Unidos e cada vez mais conhecido internacionalmente) e as várias versões do tabasco, que dispensa comentários.

Na Bahia também tem

E não adianta dizer “gosto de pimenta, é fácil!” ou “sou baiano, eu aguento!”. Esse nível de picância que agrada aos mariachi nada tem a ver com a culinária dos nossos maiores representantes nordestinos. É como comparar uma porção de camarões em um barzinho das grandes cidades com a de um quiosque na praia – esta segunda sempre será mais intensa.

Isso acontece porque na Bahia, utiliza-se mais do tempero em pó (a pimenta-do-reino é, sem dúvidas, a mais utilizada), enquanto no México utiliza-se a própria pimenta, mesmo as mais ardidas (como a habanero, até pouco tempo atrás considerada a mais forte do mundo).

No ringue

Só existe um grupo de pessoas que admira a pimenta mais do que os próprios mexicanos: os “luchadores” mexicanos. Você deve saber do que estou falando – aqueles caras enormes, musculosos e mascarados.

A “lucha libre” é a versão mexicana das artes marciais mistas (MMA) que tanto fazem sucesso ultimamente. A diferença é que por lá, o esporte ganhou status de folclore e espetáculo, misturando as técnicas da luta com uma série de acrobacias e performances teatrais.

Pela quantidade de filmes, desenhos e referências que você já deve ter visto desses atletas, dá para ter uma ideia de como é antiga a tradição. Ela remete ao ano de 1863, quando Antonio Pérez de Prian trouxe o vale-tudo para o México e o adaptou.

Lendas vivas

Quase como as touradas espanholas, dos ringues latinos já saíram verdadeiros heróis nacionais, como El Santo, Blue Demon e Mil Máscaras. Sob seus disfarces, são como personagens míticos da cultura popular.

No caso dos toureiros, são elegantes, charmosos e requintados. Quando vistos em Madri e nas grandes cidades, estão sempre com as roupas e a aparência brilhantes e impecáveis. Já os “luchadores” prezam pela força – também costumam se vestir bem, mas sempre com um ar mais austero (seriam os touros, pode-se dizer). Ah, e vale destacar que mesmo às ruas, de terno e gravata, seja passeando ou comendo pimentas, eles nunca tiram a máscara. Sua “identidade secreta” ninguém sabe.

A máscara, por falar nisso, é um símbolo de honra para o lutador. Em vez de cinturões e medalhas, nas maiores e mais importantes lutas, o campeão tem o direito de desmascarar o derrotado (é o fim dos dias de “lucha” para ele).

Só uma dica final

Se for visitar o México e não estiver acostumado a tanta picancia, peça pelas versões mais leves. Assim como na Bahia, eles estão acostumados aos turistas (pudera, são mais de 22 milhões de viajantes a cada ano!).